
Nesta entrevista, o autor revela as inspirações, desafios e prazeres por detrás deste novo livro, em que volta a recriar o encanto das investigações clássicas. Pulixi fala-nos também do papel quase metafísico dos gatos, que funcionam como observadores privilegiados e cúmplices da narrativa, e chama a atenção para a pressão do mercado editorial e a forma como a fama pode distorcer a criação literária. O que não o impede, felizmente para nós, de criar novos livros de mistério, em que os gatos voltam a brilhar…
Se os Gatos Falassem parece brincar com a fronteira entre o real e o fantástico. Numa frase, como descreveria o livro aos leitores?
Se os Gatos Falassem é um romance policial que presta homenagem à grande tradição da ficção detetivesca mundial, envolvendo o leitor num enigma de “quarto fechado” rico em suspense, humor subtil e leveza, com atmosferas de toque vintage que fazem lembrar o sabor dos romances de Agatha Christie.
O que mais o entusiasmou enquanto escrevia este livro?
Construir uma história na qual os leitores pudessem perder-se durante algumas horas, redescobrindo o prazer de uma investigação à moda antiga — guiada inteiramente pela razão e pela intuição, sem tecnologia à vista. Queria, durante algum tempo, fazê-los esquecer o mundo dos computadores, telemóveis, redes sociais e internet, que tantas vezes nos cercam e nos pesam. E, para além de os envolver no mistério, quis fazê-los sorrir e deixá-los com um sentimento de esperança. Os gatos «possuem uma inteligência curiosa e intrometida: adoram explorar e nunca aceitam a derrota perante uma porta fechada.»
Os gatos são personagens centrais e quase “investigadores” por direito próprio. Como surgiu a ideia de lhes dar voz — e até uma certa filosofia felina?
Sempre senti que os gatos são, de certa forma, criaturas bastante metafísicas. É quase como se estivessem para sempre suspensos entre este mundo e outro. Possuem uma inteligência curiosa e intrometida: adoram explorar e nunca aceitam a derrota perante uma porta fechada. Além disso, são animais crepusculares — dormem durante o dia e, à noite, vagueiam sozinhos pela cidade, como se fossem Philip Marlowe num romance de Raymond Chandler. Independentes e livres, são observadores atentos e testemunhas silenciosas. Gostei da ideia de trazer, para enredos tão lineares, ordenados e geométricos como os de um mistério clássico, uma presença ligeiramente metafísica que quebrasse a simetria.
A referência a Morte no Nilo percorre o livro. Como foi envolver-se com um clássico tão icónico de uma forma original e nova?
Foi uma grande honra, mas ao mesmo tempo trouxe um enorme sentido de responsabilidade. Ainda assim, creio que se sente o amor por esse livro — e, de forma mais ampla, pelas atmosferas, enredos e personagens de Christie. E quando se fazem as coisas com amor, tudo se torna mais simples e agradável. Adoro esses romances pelas emoções que me deram, pelas horas despreocupadas, pela fuga às responsabilidades do quotidiano — ainda que apenas por pouco tempo. Quis dar tudo isso de volta aos leitores, usando a mesma fórmula que a “Rainha do Crime”.
O livro transforma o cruzeiro num verdadeiro espetáculo literário — com um escritor a terminar um livro em público, leitores a bordo e toda a maquinaria do marketing literário. Era sua intenção criticar o mercado editorial e a pressão da fama?
Sim — o mundo editorial é frequentemente muito mais romantizado do que realmente é. É um mundo — pelo menos na Itália — em que os números contam muito mais do que as palavras, onde os escritores são cada vez mais tratados como prestadores de serviços e não como artistas; um ambiente altamente industrializado no qual, se não te adaptas a dinâmicas cada vez mais comerciais, és esmagado. Trabalhar num mundo tão competitivo também significa que o teu emprego nunca está verdadeiramente seguro: alguém mais astuto – mais hábil e com menos inibições do que tu – pode tirar-to a qualquer momento. Esta tensão constante e frenética, com todos a perseguir o próximo bestseller, gera uma ansiedade sufocante. Levei esse ambiente ao extremo, tentando mostrar o que poderia acontecer a alguém que tenta subverter um sistema tão cruel. Spoiler: pode tentar, mas não acaba bem.
Qual foi a cena ou momento do enredo que mais prazer lhe deu criar (sem revelar segredos…)?
Diria que a forma como o homicídio é cometido — a própria construção do crime, a mecânica do ato. Quis algo novo: clássico no espírito, mas nunca antes visto ou usado. Passei um ano a pensar nisso, a virar cada detalhe do avesso; nada podia, ou devia, ser deixado ao acaso. Cada elemento tinha de funcionar e ser coerente com o resto. E quando finalmente o escrevi — bem, diverti-me imenso. Foi também, de certa forma, um alívio, porque já pensava nisso há muito, muito tempo.
Se os Gatos Falassem segue A Livraria dos Gatos Pretos, que recebeu o Prix Babelio para melhor romance policial, em França. Como recebeu essa distinção e que impacto teve na sua carreira?
A Babelio é a maior comunidade de leitores em França, com quase um milhão e meio de membros registados. Receber esse prémio foi realmente importante para mim, porque é um prémio que vem diretamente dos leitores: não há agendas ocultas, nem influências ou jogos de poder orquestrados nos bastidores pelas editoras — como tantas vezes acontece com prémios literários tradicionais. Aqui, são os leitores que votam de acordo com os seus próprios gostos e as emoções que sentiram ao ler. Por isso, foi um privilégio imenso.
E é ainda mais especial tê-lo ganho precisamente com o livro que presta homenagem aos leitores e aos clubes de leitura. Acho que aqueles que votaram se reconheceram no clube de ficção policial da livraria Les Chats Noirs.
A Livraria dos Gatos Pretos foi descrita como um equilíbrio entre “cozy crime” e suspense intenso, e comparada ao estilo de Agatha Christie ou Peter Swanson. Concorda?
Sim, absolutamente. São dois autores que me inspiraram profundamente. Na verdade, coleciono a obra completa de Agatha Christie. Também devo muito aos filmes Knives Out, protagonizados por Daniel Craig, porque ajudaram a trazer de volta a atmosfera vintage do mistério clássico. Isso certamente ajudou a preparar o terreno para esta recente redescoberta do “cozy crime” e do mistério com sabor vintage.
Muitos críticos apontam-no como um dos novos mestres do suspense italiano. Como se sente em relação a isso? Trouxe mais pressão ao seu processo de escrita?
Na verdade, sim — e a pressão é má companhia para um escritor. Tento conviver com a situação da forma mais humilde possível, mantendo tudo em perspetiva. Sou apenas um artesão de histórias. Trabalho em estruturas narrativas que têm de ser o mais sólidas possível. Trabalho as emoções com martelo e cinzel, passando depois aos retoques mais finos — sentimentos e paixões. Sujo as mãos com o giz e a argila dos segredos e dos instintos mais sombrios. Mas, no fim do dia, não sou mais do que um artesão. Não salvo a vida a ninguém. Não descubro curas extraordinárias para milhares de pacientes. Sou um entertainer a tentar escrever da forma mais elegante e cativante que consigo. E, por isso mesmo, tento manter os pés bem assentes na terra, consciente de que os verdadeiros mestres são bem diferentes.
A sua escrita é frequentemente elogiada pela forma como renova o romance policial contemporâneo. Que autores ou tradições literárias mais influenciam o seu trabalho?
Sem Stephen King, provavelmente não me teria apaixonado tão profundamente por histórias — e dificilmente teria acabado a fazer este trabalho. Portanto, ele, sem dúvida. Depois acrescentaria Jim Thompson, Agatha Christie, o grande Michael Connelly, Ian Rankin, Don Winslow, o primeiro James Ellroy — e ultimamente tenho adorado Tana French e Louise Penny. Acredito, contudo, que a grandeza, o génio e a pura alta-costura literária de Edgar Allan Poe permanecem inigualáveis.
Pode revelar alguma pista sobre o que está a preparar a seguir? Há mais gatos detetives no horizonte, ou vai explorar novos caminhos?
Na verdade, estou neste momento a trabalhar no terceiro livro da série policial protagonizada por Marzio e os seus gatos pretos. Está previsto sair em Itália em setembro deste ano. Desta vez, passa-se numa pequena ilha ao largo da Sardenha, e a homenagem é a E Não Sobrou Nenhum — talvez o romance mais famoso de Agatha Christie. Será uma investigação complexa e de ritmo apertado, na qual Marzio não poderá confiar em ninguém, exceto em Marple e Poirot. Mal posso esperar que chegue também a Portugal.